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Querido coração,
Depois de tanto tempo, decidi me abrir com você. É, com você mesmo, meu coração. Você que ama as pessoas mais queridas que conheço. É capaz de ter paciência e suportar até os inimigos. E acima de tudo, tenho provas que você me ama. Sabe o que aconteceu? Descobri que você não é de ferro. Aliás, nem o ferro suporta as barras que só você segura. Por isso, decidi tomar umas atitudes e provar a você que também o amo, de todo o coração... DECIDI: Evitar aborrecimentos desnecessários e não dispensar horas de lazer saudável e de sono, controlando o nível de stress... Fazer as refeições em horários regulares, sem pressa e nem falar de problemas a mesa... Preferir alimentos de origem vegetal e optar pelas carnes magras, evitando frituras e substituir os doces por frutas... Por amor a você, prefiro mudar meu paladar e gostar mais dos alimentos naturais... Nada de bebidas alcóolicas e nem cigarros... Praticar exercícios, com sol sob orientação médica e caminhar 30 minutos por dia... Te amo tanto que mesmo você tendo alguma tendência hereditária, vou fazer tudo certinho e com amor para diminuir os riscos...
Coração, agradeço a Deus por ter me feito assim (Salmo 33:15), com você no meu peito.
Analuiza Paiva
Escrito por Laura às 11h20
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Caderno bom
Dudu Gemmal
Caderno bom que abriga minhas linhas
És como o tom que musica as sonoras trilhas
Com cujo som se harmoniza o pensamento
E as lembranças dão-se vivas no momento
Escrevo em ti; boto a fora maravilhas
Me torno inteiro; mais que outrora: muitas ilhas.
Com muito esmero
Te organizo as palavras
Estas quais não verbalizo
Desabafo em conto as lágrimas
Escorro em teu corpo liso.
Estranho se não correspondes
Com o nível da caneta
Ao expor na tua fronte
O que vejo com a luneta
O que vejo de outro canto
De frente, diante, de cima, de lado
Olheiro esquisito, caderno bonito
O olhar pelo avesso não chega atrasado.
Escrito por Laura às 10h18
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Alguma mágoa.
Alice Venturi
Vinha trazendo no coração uma mágoa antiga que só fazia doer. Não sabia o que fazer com ela. E como apertava... E como doía... Ficava ela ali no canto esquerdo, bem quieta. Dava os ares de sua graça nas horas mais impensáveis. E como manchava... E como mexia... Pulava no peito como bola desgovernada que desce a ladeira sem olhar para os lados. Queria esquecê-la. Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco. Deixá-la à deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse. Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De longe eu acenaria em meu iate invencível, lamentando por não ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem. Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria vivendo a procura do irreal e do permitido. E seria feliz se não fosse a falta que se alojaria no peito clamando pela mágoa uma vez perdida, a reclamar junto com a lua sua ausência.
Escrito por Laura às 10h42
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Hortênsias
Silas Corrêa Leite
ontem eu vi Oscar Niemeyer numa avenida paulista tomava caldo-de-cana como se espremesse frutas bebia daquela doçura como quem apalpa um halo e olhava os horizontes querendo, neles, pôr calço ontem eu vi Oscar Niemeyer que é menor que gabirova pequeno como candura sem pose de ser medida tinha sonhos sem cimento estática como um emissor e punha reparos nas coisas da Augusta Sampa embrutecida ontem eu vi Oscar Niemeyer descendo a Rua Augusta (ou seria a Mário de Andrade pois que não apreciei direito?) tinha palavras em si como cabem na videira e ouvia com prazeirança os ruídos do progresso ontem eu vi Oscar Niemeyer entre uma bodega , um circo nem preciso dizer direito tenho certeza , era ele parecia com Juscelino um pouco com Burle Marx mas era tão brasileirinho como uma palmeira ao sol (meus alunos não acreditaram ; minha mulher disse - é incrível - mas eu só acredito vendo - falou-me, sem entusiasmo) tapei o sol com peneira olhei para uma árvore , vi também ela era ele sim pois se muito me parece. ontem eu vi Oscar Niemeyer chispando pegar um táxi foi-se embora antes da chuva com sua postura Brasília fiquei olhando seu corpo caldo de cana-de-açúcar depois fui camelar hortênsias num dia de todos os santos.
Escrito por Laura às 09h53
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Almas perfumadas
Ana Cláudia Saldanha Jácomo (Para minha avó Edith)
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.
Escrito por Laura às 15h14
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